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Hoje vamos entrevistar Rui Fontes, um dos sócios da empresa Tiflotecnia, uma empresa que se dedica à comercialização de material para pessoas com deficiencias visuais.
Em primeiro lugar, obrigado por aceitar a entrevista. Pode-nos fazer uma pequena apresentação e contar resumidamente o seu percurso na vida até chegar a sócio de uma empresa como a Tiflotecnia?
Eu é que agradeço o favor de me entrevistarem.
Como disseram, o meu nome é Rui Fontes, tenho 46 anos, casado e tenho duas filhas.
Fiz todos os meus estudos ainda com visão normal, ou quase, tendo frequentado a licenciatura em Organização e Gestão de Empresas, no ISCTE.
No campo profissional, comecei por trabalhar, aos 17 anos, num gabinete de um técnico de contas, depois, estive algum tempo na área administrativa de um Stand de automóveis, onde comecei a trabalhar com máquinas de contabilidade, o primeiro contacto com máquinas automáticas de processamento de dados, pois ainda não se podiam chamar de computadores...
Em 1980, entrei, como operador de máquinas de contabilidade, para a empresa do semanário "O País", onde exerci várias funções, desde responsável pela informatização do sistema contabilístico, responsável pelo Departamento de Publicidade até Adjunto da Administração.
Com o encerramento do jornal, voltei a mudar de emprego, entrando para uma fábrica de tintas, MATESICA, onde acabei a minha carreira de emprergado por conta de outrem, como responsável pela área Administrativa e Financeira, tendo colaborado activamente em vários processos, como sejam a informatização do sistema administrativo, evoluindo depois para a informatização total da fábrica, a implementação do sistema de Qualidade, etc...
Durante todo o percurso educativo e profissional, como se pode ver, sempre me interessei pela informática, não só na óptica do utilizador, mas também na área de análise de sistemas e programação.
Devido ao meu problema de visão, retinopatia, em 1995 comecei a utilizar algumas ajudas técnicas, mais concretamente, um programa de ampliação de documentos a partir de um scanner. Tendo ficado cego por volta de 1997, constatei que esta área das Ajudas Técnicas para a deficiência visual estava com pouco dinamismo na procura de novos produtos, pelo que comecei eu próprio a efectuar essa busca, utilizando primariamente a Internet.
Em 1998, em colaboração com outra empresa, Mata & Mata, Lda, comecei a comercializar o primeiro leitor de ecrã com um software de síntese de voz em português, o Virtual Vision, um produto brasileiro.
A partir de 1999, comecei a trabalhar sózinho, como empresário em nome individual, em 2000 lancei o Jaws, considerado como o melhor leitor de ecrã do mundo, também com síntese de voz em português doBrasil, e por aí adiante, até que em 2004 devido ao constante crescimento, foi fundada a empresa Tiflotecnia, Lda, tendo a minha mulher, Teresa Fontes, como sócia.
Durante o seu percurso de trabalho, alguma vez houve discriminação? Mesmo antes de ficar cego?
Excepto alguma discriminação por causa de feitios incompatíveis, não me lembro de nenhuma... Inclusivamente, um dos empregos que tive, no anúncio de recrutamento era pedido uma pessoa do sexo feminino, e eu é que fiquei com o lugar...
O seu problema de visão alguma vez o limitou ou, pelo contrário, o incentivou a trabalhar mais e melhor?
Ambas as coisas... Por um lado, a minha deficiência visual limita-me, pois como é óbvio, há determinadas coisas que não posso fazer, e outras são extremamente difíceis, mas por outro lado, também me motiva a tentar fazer o meu melhor...
Há aliás uma frase comum a muitos deficientes, com a qual concordo, e que é:
"Não podemos ser apenas bons, temos de ser os melhores, para que nos aceitem"
Falando agora da sua empresa, pode falarnos dos produtos que comercializa? Com eles, uma pessoa cega actualmente consegue fazer tudo ou quase tudo o que uma pessoa dita "normal" consegue?
Os produtos que comercializamos podem dividir-se em, pelo menos, duas áreas, consoante estejam ligados, ou não, à informática.
Na área da informática, temos:
- Softwares que efectuam a leitura do ecrã, quer de computadores, PDA ou telemóveis, transmitindo depois essa informação ao utilizador por voz ou Braille;
- Softwares de ampliação do ecrã, de computador ou telemóvel, que permitem às pessoas com baixa visão a utilização do computador, ampliando a imagem, permitindo controlar as cores utilizadas, etc;
- Softwares de reconhecimento óptico de caracteres, que permitem a leitura de documentos impressos através de voz sintetizada;
- Linhas Braille, que são uma espécie de ecrã táctil, nos quais as letras são representadas em relevo, utilizando o código Braille;
- Impressoras Braille, que permitem a impressão em relevo, quer de texto, quer de imagens;
- Ampliadores de documentos, normalmente chamados de CCTV's, que permitem ampliar qualquer documento ou objecto, de modo a que uma pessoa com sérias limitações visuais possa interagir com eles;
- Máquina de leitura, que facilita a leitura de documentos impressos através de voz sintética.
- Etc.
Na área não ligada à informática, comercializamos vários artigos para utilização na vida diária, que tanto podem ser para orientação e mobilidade, onde se destacam as bengalas brancas, detectores de obstáculos, sistemas de GPS, para escrita, destacamos as máquinas de escrever, pautas, para a utilização em cozinha, balanças falantes, jarros para medição de alimentos líquidos, para o lazer, destacamos vários jogos e bolas sonoras, e muitos outros...
O que é que pensa das ajudas governamentais dadas aos deficientes? São nulas, chegam ou são de mais?
Essa é uma pergunta com resposta difícil!
Por um lado, o montante total de ajudas concedidas pelo Estado para aquisição deste tipo de ajudas técnicas, é extremamente baixo, pois, não tenho o número certo, mas é inferior a 20 Euro por ano e pessoa com algum tipo de deficiência, o que como é óbvio, é insuficiente.
Por outro lado, a atribuição e fiscalização da utilização destas ajudas carece de critérios sérios e objectivos, havendo muitas falhas em todo o processo, desde a sua prescrição por um médico, arté à sua não utilização por já não serem necessárias, para não falar de casos menos honestos...
Que novidades podemos esperar brevemente da sua empresa, e/ou das novas tecnologias para deficientes visuais?
Essa também é uma boa pergunta... Como se custuma dizer, todas as novas tecnologias teem um potencial para o bem e para o mal, ou neste caso específico, para promover a exclusão e a inclusão. Todo o avanço tecnológico está assente nesta dualidade, e é esta conflitualidade que faz avançar a humanidade... No nosso caso específico, aproxima-se mais uma batalha, personificada pelo lançamento do Windows Vista... Apesar de quase todas as empresas estarem já a tentar adaptar os seus produtos a este novo sistema operativo, só depois do seu lançamento definitivo é que se vai saber quais as reais implicações desta mudança...
Para além destas batalhas, a única evolução que esperamos é a miniaturização e a diminuição dos preços, provocada pela maior industrialização e massificação.
Agradecemos a sua entrevista e esperamos que tenha sucesso com a empresa.
Pela nossa parte, agradecemos!
Editado pela última vez por SlAiD em 18 mai 2006, 10:15, num total de 1 vez.
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